MENINO de Santa Cruz. Talvez essas palavras definam quem é Marcus Vinícius Faustini. O diretor teatral e documentarista tornou-se hoje o que colheu de frutos como um menino de infância pobre, sonhador e que soube aproveitar as boas oportunidades que a rua deu para formar a própria noção de cultura. Faustini cresceu em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, e cenário das principais experiências de muitas faces de produções culturais e de vida deste garoto. O menino de Santa Cruz tomou repercussão e foi parar em grandes palcos do Brasil como diretor teatral, mas como ele mesmo afirma, “nunca tirei os pés do meu território”, mesmo quando foi premiado pela montagem elogiada por crítica e sucesso absoluto de público do espetáculo Capitu. Tantas experiências na vida pessoal serviram, mais tarde, para que através de projetos, novos meninos se descobrissem e participassem de movimentos culturais desenvolvidos na periferia.
Este breve trecho da história de Faustini não tem a finalidade de divulgar uma biografia, mas conscientizar pessoas e governos, que com um pouco de boa vontade, dedicação e incentivo é possível que mais meninos se encontrem no meio de tantas produções culturais que a periferia oferece. Pois quando o “território” produz arte, das diversas maneiras existentes, não é preciso importar e assim a comunidade se fortalece e o menino encontra um jeito de “tá na vida”. Faustini disse ter seguido tendências punk e funk, ter conhecido a teologia da libertação, ter sido militante de movimento estudantil e, hoje, trabalha como secretário de Cultura da cidade de Nova Iguaçu, na baixada Fluminense, onde coloca em prática o que aprendeu durante sua vida.
De acordo com o secretário, em tempos antigos os escritores e intelectuais brasileiros buscavam formas de representar o povo, criavam movimentos que seriam a caracterização fiel do que era a expressão popular. Porém, a partir dos anos 90, o povo deixa se ver representado em discursos e obras e passa a ser o agente de produção deste conteúdo. Mas mesmo com essa mudança no Brasil, onde o discurso de defesa seja pela cultura popular, ainda existe a falta de mecanismos para que estas culturas sejam expostas e desenvolvidas. De acordo com Faustini, os projetos que conseguem ser emplacados na área social são vistos como assistencialismo e não como uma forma de fomento da expressão de uma comunidade, pois a periferia é vista pelas óticas da carência, o que é um grande erro. Na verdade, elas têm a própria essência.
Mesmo diante dessas barreiras, a riqueza das produções artísticas populares estão cada vez mais aparentes. De certa forma, as trocas simbólicas entre diferentes grupos é responsável pela disseminação cultural. Diferente de outras épocas e até mesmo nos dias de hoje, em alguns locais, os grupos não se fecham num determinado segmento e sim, acolhem as demais manifestações a fim de misturar diferentes estilos. Estilos esses que são vistos com frequência com olhares de criminalização. O exemplo mais comum é o funk. Faustini lembrou que o ritmo começou seguindo vertentes de questionamentos de problemas sociais e conscientizadoras, mas que, aos poucos, essas foram abandonadas e, atualmente, restou apenas a da criminalidade, que é onde a manifestação encontra forças para sobreviver, embora existam movimentos e locais que usem o funk para fazer cidadania.
O secretário comentou também sobre a relação entre som e imagem e as camadas sociais. Segundo ele, ao longo da história a imagem ficou sob o comando da elite e é o que acontece até hoje. Para os mais pobres restou a oralidade, uma forma mais barata e fácil de comunicação. Por isso é comum vermos em alguns lugares a criatividade associada à voz, e em muitos casos sendo usadas para chamar a atenção para atividades de sobrevivência. Nas ruas...OLHA A VAN...CACUIA, COCOTÁ, FREGUESIA, BANANAL. Nas praias...MATE GELADINHO, OLHA O AÇAÍ, QUEIJINHO NA BRASA, ÁGUA DE COCO...e tantos outros.
Depois de percorrer tantos palcos, ruas e comunidades, Marcus Vinícius Faustini continua desempenhando um importante papel social em Santa Cruz, mas mora atualmente em Santa Tereza, também no Rio de Janeiro. Como secretário, criou o fundo de cultura com arrecadação de 1% revertido para atividades nos pontos de cultura de Nova Iguaçu, sobretudo nos pontinhos, que segundo ele, são os 55 que funcionam nas escolas. Ainda de acordo com Faustini, Nova Iguaçu é o único município no Rio que tem esse fundo disponível para a cultura.
Para os que andam desanimados com o rumo das políticas públicas no país, Marcus pede determinação e pressão aos órgãos públicos e sobretudo que acreditem que esses trabalhos podem transformar a vida dos Meninos, termo que ele usa com frequência, mostrando intimidade com aqueles que são hoje, o que ele foi há alguns anos. Por isso o leitor deve ter notado que repito o termo várias vezes e o destaco. Num tom de alegria e satisfação, Marcus Vinícius Faustini, disse estar feliz com a posição que ocupa hoje, e mais do que isso, com os trabalhos que realiza. Faustini, que foi visto por muitos como vagabundo, porque em vez de trabalhar de forma convencional optou por teatro e arte e participava de movimentos. Segundo ele, existe esta visão de que pobre tem que trabalhar e não estudar muito, nem ter sonhos utópicos e outros tipos de realizações. “Devemos mudar essa história com muito trabalho!”
Eu, Gabriela Misael, assino embaixo.